Perdido nas sombras! Conversamos com o produtor de Lost in Shadow: Shinichi Kasahara - Edson Kimura
Você pode nos falar um pouco sobre Lost in Shadow?
Lost in Shadow é um jogo de ação com elementos de quebra-cabeça, onde a sombra do personagem principal escala uma misteriosa torre para recuperar o seu corpo. Resumindo, o jogador controla a sombra através de estágios que também são compostos por sombras. O jogador tem que atravessar esses ambientes mudando a forma e a posição de objetos e também manipulando a luz, para assim mudar a posição das sombras e prosseguir. Os inimigos também são sombras, que você pode enfrentar usando a sombra de uma espada encontrada durante a sua aventura.
Quando vi o conceito de "um garoto que perdeu a sua sombra", isso me lembrou do livro de J.M. Barrie, "Peter e Wendy", na qual Peter Pan também perde a sua sombra de modo idêntico. Isso foi uma inspiração?
Na verdade não tínhamos pensado em Peter Pan até você falar sobre isso! A inspiração para o jogo foi uma brincadeira de criança chamada "Kage-Fumi". Observando crianças brincando em um parque trouxe à tona as memórias da nossa infância, e de quando costumávamos brincar disso. Assim, o nosso objetivo era recriar essa experiência no jogo.
("Kage-Fumi" é nosso tradicional pega-pega, mas ao invés de tocar na pessoa para "pegar", o objetivo é pisar na sombra.)
Sobre o estilo de arte, você comentou que é fortemente baseado em elementos japoneses. Você poderia falar sobre isso?
Sim, claro. O estilo de arte é focado em solidão, tristeza e nos sentimentos desconfortáveis que são universais para os japoneses em relação às horas do crepúsculo. Nós tentamos incorporar esses sentimentos em certos objetos e usando certas paletas de cores. Essa atmosfera é mais aparente nos primeiros estágios, principalmente em volta da entrada da torre e no percurso com a gôndola.
Quais foram os sentimentos que você quis transmitir com a atmosfera difusa, sonhadora de Lost in Shadow?
O nosso objetivo foi representar psicologicamente essa atmosfera como um fundo para os acontecimentos do jogo. Qual é a função da torre, e o que ela representa? Por quê a figura misteriosa arremessa a sombra do garoto do alto da torre? Essas perguntas sem resposta são gradualmente respondidas conforme você readquire as memórias perdidas e escala a torre.
Qual a conexão entre a música de abertura (Hinagiku, por Gutevolk) e a história/mundo de Lost in Shadow?
O que nos chamou a atenção foi a melodia, mais do que a própria letra. Os sentimentos de solidão que esta melodia transmite são fantásticos, e a natureza levemente melancólica são uma combinação perfeita para Lost in Shadow.
Antes de apresentar oficialmente o projeto do jogo internamente, a equipe de desenvolvimento já tinha escolhido a música de modo não-oficial. Como você pode ver, é um conceito difícil de mostrar sem recursos audiovisuais, e assim criamos o jogo antes de conseguir permissão de Gutevolk. Não preciso dizer que ficamos felizes quando eles concordaram em ceder a música para o nosso jogo!
Lost in Shadow é bem diferente de tudo que a Hudson tem no seu catálogo. Como foi o processo de conseguir a aprovação para um jogo tão único?
Sim, admito que Lost in Shadow não é algo convencional para a Hudson, mas a originalidade do conceito é algo bem característico da empresa. Assim, a equipe na verdade teve mais problemas em implementar todas as idéias que a companhia inteira nos apresentou. Isso sim foi difícil...
A Hudson pretende criar mais jogos assim?
Eu acredito que sim, você verá mais jogos únicos como Lost in Shadow nos próximos anos. Pretendo lutar por isso, e quando conseguir, eu quero implementar pelo menos um aspecto que é único e diferente de tudo que nós ou qualquer outra empresa já fez em cada novo jogo.
No ocidente, existe um debate controverso sobre os méritos artísticos de videogames. Qual a sua opinião sobre isso? Você considera Lost in Shadow arte?
Minha opinião sobre o assunto é muito simples: enquanto o parte artística ajuda a melhorar a qualidade do jogo e o seu grau de diversão, é algo importante. Nós não tínhamos como objetivo criar Lost in Shadow para ser artístico, queríamos apenas criar uma atmosfera visual que combinasse com a jogabilidade. Pessoalmente, eu acho que um jogo, antes de tudo, é algo que tem que ser divertido. Não acho que é possível criar algo com a jogabilidade totalmente centrada nos aspectos artísticos, mas acredito no contrário, que a arte pode ser usada para incrementar a jogabilidade.
Shinichi Kasahara e a equipe de produção de Lost In Shadow
Você pode mandar um recado para os fãs brasileiros de Lost in Shadow? Eu espero que todos vocês gostem das charadas nesse mundo de sombras. Tenho certeza de que vocês ficarão fascinados em ver como as sombras são o foco do jogo, e também intrigados pela história que é lentamente apresentada conforme você avança pela torre!
Muito obrigado pela entrevista, e parabéns por criar um dos jogos mais únicos do ano, na minha opinião. Aguardo mais fantásticos jogos como Lost in Shadow vindos da Hudson.
Eu que agradeço. Vou dar o melhor de mim para criar jogos que poderão nos dar esse tipo de oportunidade novamente.
Entrevista originalmente publicada na edição #137 da revista Nintendo World.